RESENHA #21: "Lavoura Arcaica", Raduan Nassar

TÍTULO: Lavoura Arcaica
AUTOR: Raduan Nassar
EDITORA: Companhia das Letras
ANO: 2015
PÁGINAS: 194
GÊNERO: ROMANCE





Sobre Raduan Nassar

Raduan Nassar é um escritor brasileiro nascido em 27 de novembro de 1935. Filho de imigrantes libaneses, na adolescência, foi para São Paulo com a família, onde cursou Direito e Filosofia na Universidade de São Paulo. Seu conjunto literário é pequeno, mas substancioso. Publica o romance “Lavoura Arcaica” em 1975. A novela “Um copo de cólera”, escrita em 1970, só aparece em 1978. Em 1997 sai a coletânea de contos “Menina a caminho e outros textos”, reunindo textos escritos entre 1960 e 1970 e publicados anteriormente de modo esparso.
Pela extraordinária construção narrativa e  metalinguística, seus dois romances foram suficientes para situá-lo entre os escritores de maior importância no país surgidos após Clarice Lispector e Guimarães Rosa, que inclusive possuem mais obras lançadas.
Em 1976, ganha o Prêmio Jabuti, na categoria Revelação de Autor, da Câmara Brasileira do Livro, para o livro “Lavoura Arcaica”. Recebe também o Prêmio Coelho Neto para romance, da Academia Brasileira de Letras, para o livro “Lavoura Arcaica”. Já em 1978, recebeu o Prêmio APCA de melhor ficção para o livro “Um copo de cólera”.
É vencedor do Prêmio Camões 2016.  O júri, que atribui o prêmio por unanimidade, anunciou a sua decisão em Lisboa, numa cerimônia presidida pelo secretário de Estado da Cultura Miguel Honrado.

Sobre "Lavoura Arcaica"

A obra se divide em 30 capítulos, além de duas partes: “A partida” e “O retorno”. Os personagens principais são: André, “filho pródigo”; Pedro, filho mais velho; a mãe; o pai Iohána; Lula, o filho caçula, Ana, Rosa, Huda e Zuleika, que são as irmãs.

Basicamente é uma obra que trata sobre as relações no ambiente da família, as tradições religiosas, os questionamentos entre a tradição familiar rural (representada pelo pai Iohána) e a vanguarda de questionamentos urbanos sobre a estrutura (representada por André, o filho).
É um livro de múltiplas camadas, sendo possível ler sua camada básica como sendo os questionamentos entre personagens, os tabus que aborda, a situação das personagens femininas, entre outros. Nas camadas mais profundas, entre-linhas que discutem a relação entre a regra e o tabu, religião e mística, questões sobre corpo e erotismo, tradição literária e vanguarda literária. Além de trabalhar com questões sobre liberdade.

As escolhas vocabulares do autor, como também a estrutura da construção da história por meio de cenas se assemelha à construção dramática, ou seja, às transições utilizadas em peças de teatro (cenas e atos). E no domínio da linguagem, Raduan utiliza figuras de linguagem, como metáforas, por exemplo, além de uma construção que está no campo da prosa poética, tornando-o assim um desafio para quem está acostumado com enredos simples de início-meio-fim, de léxico comum, cotidiano.
É um livro para ser lido com calma, devagar, de preferência com lápis e papel por perto. É um livro que mexe profundamente nas estruturas do leitor, já que trata de família. Ou seja, como diria Clarice Lispector, é um livro para seres de alma formada. Ou se não, corre-se o risco de encarar questões profundas com algum desleixo, petulância ou até abandono da obra mesmo. Há que se ter coragem, leitor, pra entrar nisso.

Seu público alvo não é infanto-juvenil, mas adulto. Mas também não qualquer adulto. Existe a necessidade de uma maturidade emocional para encarar esse livro. "Lavoura Arcaica" é um livro que exige do leitor, que suga do leitor, um livro ciumento, de uma exclusividade carinhosa, que demanda dedicação.
Não adianta achar que vai "devorar" Lavoura Arcaica. É justamente o contrário: ele é que vai devorar você, "leitor hipócrita, meu amigo, meu irmão", como diria o poeta francês Baudelaire, em seu "O leitor", poema de abertura do livro "Flores do mal".
Bom, voltando, o que posso garantir é que o nó da garganta e o soco no estômago que "Lavoura Arcaica" vai deixar como herança é pra levar pro resto da vida. É uma leitura-porrada, mas garanto, você jamais vai se arrepender de ter começado.

Breve análise

A história é narrada em primeira pessoa por André e é ele que questiona as tradições, os sermões do pai e as relações familiares. Foge de casa, mas logo retorna, assumindo a figura de uma paródia de “filho pródigo”, já que é trazido de volta pelo irmão mais velho, Pedro, e seu retorno não é por conta de seu fracasso, como na parábola original. Além de sua postura como filho que retorna ser totalmente diferente da tradicional, afinal André retorna para questionar o pai de todas as maneiras possíveis, enquanto que o filho pródigo nada questiona, apenas crê e obedece.
Como o nome de Pedro sugere, ele é a pedra na qual o Pai confia que a família se constituiria de maneira segura porque é esse o filho que, primogênito, levaria a tradição patriarcal à frente, sendo o braço direito e filho dileto de Iohána, o pai.

“‘nós te amamos muito, nós te amamos muito’ era tudo que ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez.” (NASSAR, p.9, 2015) Essa era a fala principal do irmão mais velho, Pedro, quando encontra o irmão num quarto de pensão. 

A voz de Pedro quase sempre é confundida com uma voz única pertencente à toda a família, ele é um eco, uma projeção ambulante do pai. Ao encontrar o irmão, Pedro será o porta-voz do coro familiar, no qual as lições do pai sobrepujarão inclusive as lágrimas, a fala contida e a dor da mãe.
A partir desse reencontro com o irmão, André inicia o retorno ao lar através de memórias que são contadas a partir de uma fala sustentada através das sensações, do que cada sentido acata ao ser impactado por algo, pelas experiências que carrega na chegada, mas também lembranças da infância e adolescência.

“(...) tudo, Pedro, tudo em nossa casa é morbidamente impregnado da palavra do pai; era ele, Pedro, era o pai que dizia sempre é preciso começar pela verdade e terminar do mesmo modo (...) era essa a pedra em que tropeçávamos quando crianças, essa a pedra que nos esfolava a cada instante” (NASSAR, p.41, 2015)

Suas descobertas tem a família como objeto e as relações familiares são nós que André tenta desatar de si sob o desespero daquele que intui a estrutura familiar como farsa e desdita. E a sina da repetição - o eterno retorno.

“(...) haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ‘estamos indo sempre para casa’.” (NASSAR, p. 34, 2015)

André relembra acontecimentos que o marcaram enquanto vivia na casa dos pais e suas experiências fora do lar, principalmente no campo da sexualidade, trazem a ele uma visão apurada dos desejos ocultos que possui, tudo isso trazido ao leitor de maneira tempestuosa e lírica. A partir desse conhecimento, André observa e reage aos atos e desmandos do pai em relação à submissão da mãe e dos outros irmãos, especialmente Ana.
O autor Raduan Nassar constrói o narrador-personagem André utilizando associações de memórias  olfativas, táteis, auditivas: uma memória do corpo. Este mesmo corpo sendo instrumento de construção para diversos aspectos da própria história, como infância e adolescência.

“ ‘que tormento, mas que tormento, mas que tormento!’ fui confessando e recolhendo nas palavras o licor inútil que eu filtrava, mas que doce amargura dizer as coisas, traçando num quadro de silêncio a simetria dos canteiros, a sinuosidade dos caminhos de pedra no meio da relva, fincando as estacas de eucalipto nos viveiros” (NASSAR, p.50, 2015)

Raduan Nassar inova com em sua escrita elíptica, entrelaçando novela e lírica, criando personagens a partir de outros, p. ex., em “Lavoura Arcaica”, André é o narrador e é de sua escrita que constrói a mãe, Ana, Pedro, o pai. Um personagem é que desdobra os outros. A autoria de Raduan cada vez mais desfocada da persona do autor, do ídolo da literatura. 

Vê-se a inovação literária que promoveu a partir de sua escrita elíptica, entrelaçando novela e lírica, trazendo à estrutura do romance uma poética voluptuosa e sedutora para o leitor, indo além do racional/mental de Clarice, por exemplo. 

“(Em memória de meu pai, transcrevo suas palavras” (NASSAR, p.193, 2015)

O leitor se engolfa nos cataclismas da construção linguística de André, não conseguindo reter a força do discurso do narrador que não o toma na mente, mas no que há de mais interior e íntimo: o desejo.

“(...) ‘é o meu delírio’ eu disse ainda numa onda mais escura, cansado de ideias repousadas, olhos afetivos, macias contorções, que tudo fosse queimado, meus pés, os espinhos dos meus braços (...)” (NASSAR, p. 46, 2015)

O leitor estará envolvido num labirinto estético de sentidos, sobretudo, e isso posto numa sociedade que em que a tirania do corpo existe apenas por sua beleza plástica. O corpo para André não é uma capa onde a alma se manifesta ou uma cabeça onde a razão pretende obter todas as respostas para si sobre o mundo.
Não é fácil traçar um roteiro para a leitura de Lavoura Arcaica. Aquele que se debruça sobre o livro, corre o risco de encontrar uma tragédia anunciada:

“eu, o epilético, o possuído, o tomado, eu, o faminto, arrolando na minha fala convulsa a alma de uma chama, um pano de verônica e o espirro de tanta lama, misturando no caldo deste fluxo o nome salgado da irmã, o nome pervertido de Ana”. (NASSAR, p.88, 2015)

Lavoura Arcaica não é um espelho social, longe disso. É atemporal. Ao encarnar características de todos os tempos, o romance perde sua conjuntura de entretenimento esvaziado de memória.

“ (...) rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente” (NASSAR, p.52, 2015)

Para André, “- Toda ordem traz uma semente de desordem, a clareza, uma semente de obscuridade, não é por outro motivo que falo como falo.” (NASSAR, p.158, 2015)

Raduan inova trazendo o silêncio de Ana, a epilepsia de André, o excesso de zelos da mãe e instigando o leitor a analisar as manipulações do patriarca, figura normalmente posta para ser honrado, exemplo de sabedoria e liderança carismática na família.
Longe disso. Aquele leitor que tomar para si o monólogo do tempo como síntese de vida simplesmente caiu na armadilha e não compreendeu o perigo.

“- Você está enfermo, meu filho, uns poucos dias de trabalho ao lado dos teus irmãos hão de quebrar o orgulho da tua palavra, te devolvendo depressa a saúde de que você precisa.” (NASSAR, p.160, 2015)

Ao romancista cabe cavar os silêncios e trazer à tona dos palimpsestos, versões até então desconhecidas, mas não impossíveis.

“(...) Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam, acho um triste faz de conta viver na pele de terceiros, e nem entendo como se vê nobreza no arremedo dos desprovidos; a vítima ruidosa que aprova seu opressor se faz duas vezes prisioneira, a menos que faça essa pantomima atirada por seu cinismo.” (NASSAR, p.162, 2015)

O leitor de “Lavoura Arcaica” é posto entre Narciso e a Esfinge. Ou crê e se afoga; ou responde e é devorado de qualquer jeito. Sendo assim, o leitor então passa, em suspenso, toda a história.

“Ana, me escute, é só o que te peço” (NASSAR, p.124, 2015)

Ao retomar a construção formal da parábola como comparação e relação entre o saber e o cotidiano, o patriarca Iohána utiliza o mesmo instrumento dos mestres e sábios para ensinar a obediência ao Tempo. Ele mesmo, instrumento e obra, profeta da palavra que irá manter coesos e enovelados os laços de família. Nós.

“(...) hão de ser esses, no seu fundamento, os modos da família: baldrames bem travados, paredes bem amarradas, um teto bem suportado; a paciência é a virtude das virtudes, não é sábio quem se desespera, é insensato quem não se submete’.” (NASSAR, p.60, 2015)

“(...) onde ele, numa caligrafia grande, angulosa, dura, trazia textos compilados, o pai, ao ler, não perdia nunca a solenidade: ‘Era uma vez um faminto’”. (NASSAR, p.61, 2015)

E assim, o silêncio também resguardará todos os pensamentos contrários da família sobre o patriarca e sua rotina: “(...) a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; através da paciência que nos purificamos” (NASSAR, p.57, 2015)

A questão principal não é a harmonia entre o corpo e a fala de André, mas seus trânsitos e como eles desafiam os tabus e dogmas da construção dos nós da família tradicional.
Nenhuma das construções rigorosas de frases no romance se permite ser decifrada sem que o leitor se perca em mitologias múltiplas, símbolos e signos, subjetivos e sociais, além de opiniões e as próprias histórias que constroem a identidade deste leitor.
O texto fragmentado, mudando sua estrutura e narrativa interna a cada momento da história, traz mais instabilidade, além de fazer com que o leitor lide com as sugestões de temas tabus propostos no romance.
Flagrar a arquitetura do texto de Raduan e ver essa lógica dos labirintos formais construídos por ele, faz com que se suspenda a verdade ou a mentira, o certo ou errado. Estamos sempre correndo risco de ser engolfados pelas histórias múltiplas que se desenham na obra e enganados pelo narrador, em suas opiniões, defendidas de maneira poderosa e emotiva.
E, mais uma vez, coragem, leitor! Larga a televisão e se joga na "Lavoura Arcaica".

Mariana Belize
Projeto Literário Olho de Belize em parceira com Estante da Mi

PS: Depois de ler o livro, procure e veja o filme.

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