Resenha #30: Poética, Ana Cristina Cesar



Livro: "Poética", Ana Cristina Cesar
Sinopse: O livro "Poética", lançado em 2015 pela Companhia das Letras, é uma compilação de livros lançados da poeta Ana Cristina Cesar, além disso também poemas inéditos e textos críticos. O livro contém, além das obras, uma apresentação feita por Armando Freitas Filho, o posfácio de Viviana Bosi, uma cronologia, orelhas de Ítalo Moriconi e no Apêndice teremos palavras de Heloísa Buarque de Hollanda sobre Ana C..
Quantidade de páginas: 
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2015
Gênero: Poesia


Ana Cristina Cesar (1952-1983) nasceu no Rio de Janeiro. Formada em Letras pela PUC-Rio, mestre em comunicação pela UFRJ e em teoria e prática de tradução literária pela Universidade de Essex, ne Inglaterra, participou da antologia 26 poetas hoje (1976), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Foi poeta, jornalista, tradutora e crítica literária.
RESENHA:
"Quem caça mais o olho um do outro?"
Ana C.

A "Poética", de Ana C., compõe-se pelos livros: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A teus pés: prosa/poesia (1982), Inéditos e dispersos: prosa e poesia (1982), Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa (2008) seleção e Visita à oficina que, segundo o curador Armando Freitas Filho, surgiu graças à pesquisa do poeta e compositor Mariano Marovatto no arquivo de Ana Cristina Cesar no Instituto Moreira Salles, RJ. Importante dizer que, no Apêndice, existe uma coletânea de textos, tanto críticos como não-críticos, sobre a obra de Ana C., assinados por gente importante como, por exemplo: Heloísa Buarque de Hollanda, Caio Fernando Abreu, Reinaldo Moraes, além de Silviano Santiago, com um olhar revelador sobre "Correspondência Completa".

Ana Cristina Cesar tem uma escrita muito enigmática, embora tenha nisso uma imersão em outros poetas, escritores e gêneros de arte, como cinema, por exemplo. Dentro de sua poesia, como de sua prosa, encontraremos enigmas referenciais dos quais, muitas vezes, não teremos chaves para compreensão.
"Well, se isto fosse uma resenha competente eu deveria falar das afinidades de poesia/prosa de Ana Cristina com escritores de língua inglesa - Whitman, na parte franca e discursiva; Emily Dickinson, na concisa e elíptica; Katherine Mansfield (de quem Ana é excelente tradutora) nas sondagens em profundidade da anima & cuore feminina. Sem contar os brasucas todos - Murilo Mendes e Manuel Bandeira em especial - onde ela foi debicar lirismos à moda da casa." (Reinado Moraes)
O eu-lírico de Ana não é pra ser compreendido no sentido estrito do termo, ou decifrado, exposto, explicado, dissecado, assim como sua obra inteira jamais, segundo meu ponto de vista, deve ser utilizada para justificar seu suicídio. Muito pelo contrário, a obra de Ana é uma escrita viva, como bem diz Armando Freitas Filho, em seu texto de abertura no livro.
Ainda que esse ato inexplicável leve muitos a lerem Ana Cristina por esse viés, a poética de Ana C., na verdade, é blindada contra esse minimalismo de olhar. Para isso, a Esfinge devora os limitados, os que se alimentam de morte e cultuam desgraças. Ana-solar, Ana Cristina Cesar, definitivamente, não é para obscuros sugadores.
"Daí que seu estilo singularize pela descentralização, pelo fingimento, pela fragmentação, verdadeiras armadilhas para o leitor.", segundo Nelly Novaes Coelho.
"pedra lume
pedra lume
pedra
esta pedra no meio do
caminho
ele já não disse tudo,
então?"

Acima, a referência a Drummond, "pedra no meio do caminho", poeta do qual também teremos outras referências na poesia de Ana.
Esta referência escancara uma das maiores características do texto de Ana C: a presença de outras "vozes", ou seja, a utilização de referências veladas a outros poetas na escrita. Só que, sem o uso das aspas, as referências se tornam quase invisíveis, a menos que o leitor atento aos detalhes (re)conheça do que se trata e, principalmente, de quem.

"O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não me largam!"
trecho de A teus pés, Ana C.

Além dessa característica, teremos também as questões de uma autoria feminina, mas não de uma feminilidade puritana. Bem, bem longe de moralismos baratos e furados, a poética de Ana C. falará de tesão e hímen, seios... tudo a "sete chaves" e sem maiúsculas.

"Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna.
Nem te conheço.
É daqui que eu tiro versos, desta festa - com arbítrio silencioso e origem que não confesso - como quem apaga seus pecados de seda, seus três monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas."
trecho de "sete chaves", em A teus pés, Ana C.

Ana C., assim como comentei sobre "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar, também é uma escritora do tipo que exige uma leitura atenciosa, uma leitura despretenciosa mas pretendendo, desarmada de preconceitos, tiranias e moralismos furados. A leitura de Ana C. deve ser acompanhada de café e não de vodka. Não é um livro de entretenimento. Não é uma rave.

"Ana Cristina Cesar é voa já incorporada pela literatura brasileira, como testemunha de um tempo em que a contracultura invadiu todos os espaços, valorizando o instante, a velocidade, o presente absoluto, o corpo erótico, a subversão..." (Nelly Novaes Coelho, em "Dicionário Crítico de Escritoras brasileiras")

Vale a pena revisar a si mesmo antes de embarcar na leitura, vale a pena abrir as malas do peito, revirar as gavetas de rascunhos e planos de voo, remexer os músculos da alma, antes de ler. Mas, se não fizer, também não tem problema, Ana Cristina vai fazer isso com você, querendo ou não, o incomôdo é prazeroso, mas é também um embate, um confronto.

Baudelaire confortou o leitor no início de seu "As flores do mal": "hipócrita leitor, meu amigo, meu irmão", ou algo assim. Ana Cristina Cesar não conforta.
Seu confrontamento se constrói na entrelinha, no espaço "vazio", na lacuna, no que você não vai "pegar" da primeira passada de olhos. "Poética" prova que não sabemos mais ler, só "passamos os olhos pelas letras". Para uma leitura de entretenimento é o suficiente, mas para a arte, não.

O exercício da leitura é mais do que hábito.

"Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.

Estou muito compenetrada no meu pânico.
Lá de dentro tomando medidas preventivas.
Minha filha, lê isso aqui quando você tiver perdido as esperanças como hoje. Você é meu único tesouro. Você morde e grita e não me deixa em paz, mas você é meu único tesouro. Então, escuta só; toma esse xarope, deita no meu colo, e descansa aqui; dorme que eu cuido de você e não me assusto; dorme, dorme.
Eu sou grande, fico acordada até mais tarde."
trecho de Luvas de Pelica, Ana C.

O exercício da leitura não é um dom.

"As cartas
não mentem
jamais:
virá ver-te outra vez
um homem de outro continente.
Não me toques,
foi minha cortante resposta
sem palavras
que se digam
dentro do ouvido
num murmúrio."
trecho de pour mémoire em A teus pés, Ana C.

O exercício da leitura é como amar: exige disciplina, atenção, entrega. E desejo. E paixão.
Tempo.

"Por que essa falta de concentração?
Se você me ama, por que não se concentra?"
Ana C.

"A sensação que se tinha ou a reação sentida é que sua escrita, além de interpelar-se, interpelava quem lia, transformando o leitor, até certo ponto, em seu interlocutor, pois o que era dito confidencialmente se abria para todos sem se entregar por completo, não por mero capricho, mas sim porque o que era dito era irresoluto por natureza."
Armando Freitas Filho

"Gil diz que sou uma leoa-marinha e eu exijo segredo absoluto (está ficando convencido): historinhas ruminadas na calçada são afago para o coração. Quem é que pode saber? Eu sim sei fazer calçada o dia todo, e bem. Do contrário...
Não fui totalmente sincera."
in Correspondência Completa, Ana C.

"Ana Cristina encarnava a modernidade. (...) Seu verso, que pertence à vertente cultivada da geração que apareceu em 1970, é, hoje (1985), pedra de toque para toda poesia que se quer nova, com seus motivos e matizes estilizados que se deixam acompanhar, ao fundo, por uma busca de inusitada melodia que parece ter sido feita pela mistura de cristais, heavy metal e tafetá." (in contracapa de Inéditos e Dispersos, publicação póstuma)

Ler Ana C. é construir um viveiro de perguntas que mordem como formigas de fogo.

"O prazer é anterior, boboca."
in Correspondência Completa, Ana C.

Sendo assim, a leitura das obras de Ana Cristina demanda uma não-conformidade do leitor com certas "regras". talvez seja melhor começar do meio do livro, ou do final, pelo apêndice, textos críticos sobre ela, uma pesquisa na Wikipedia ou no youtube, onde ela lê "Samba canção".
Ou, simplesmente uma abertura ao acaso, uma leitura fragmentada mas ruminando os fragmentos por um dia ou dois.
Ou décadas.

"Tenho medo de perder este silêncio."
in Luvas de Pelica, Ana C.

Às vezes, largá-lo. Ler outros.

De repente, faço uma anticarta, antídoto do pathos."
in Luvas de Pelica, Ana C.

Não olhar pra ele um tempo. Um desinteresse das profundidades, uma respirada na superfície do caos do mundo.

"PS: Li Brás Cubas verticalmente e me pôs low, quite low."
in Luvas de Pelica, Ana C.

Tomar um sorvete. Mas depois voltar, apaixonado/apaixonada pela leitura outra vez. Ou desde sempre. Do caos ao caos, voltar a amá-la.

"Querido diário:
Vergonha ricocheteia."
in Luvas de Pelica, Ana C.

"E assim, chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem."
Não é Ana. É Milton Nascimento, "Encontros e despedidas".

É um livro difícil de se separar dele. Mesmo sem ler, seja por um motivo ou dois, ou mais, ele vai ficar por ali, neon nos cantos dos olhos. A gente fica meio ansioso de abrir essa mala de viagem pra olhar dentro e catar alguma lembrança.
Sim, ainda tem esse efeito de memória. Certeza de que você já conheceu um Gil, uma Mary na vida. Calma, cê vai saber quando ler.

"Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo."
trecho de Noite carioca, Ana C.

"Armadilha: louca pra saber
Ela é esquisita"
trecho de conversa de senhoras, Ana C.

"azul azul que não me espanta, e canta como uma sereia de papel."
Ana C.

"anjo
que extermina
a dor"
Ana C.

dica: já viu algum do Buñuel?

"tudo que move é sagrado"
é Milton... again.

Ah, antes que eu me esqueça: ande com lápis, se for ler "Poética" e jamais tenha medo de escrever nele. Ainda que tenha sido caro, vai valer a pena conversar com Ana pelos trechos riscados, pelos rabiscos, diálogos impertinentes que os poemas plantam na leitura do cotidiano, de uma rotina ritmada que a poesia disritmiza.

Como já disse antes, não é pra ser devorado. Ou melhor, leitor, vá. Tente, depois se arrependa e volte atrás.
Tome um outro sorvete, outro sabor. Respire.
Calma, não rasga o livro. Custou caro, lembra?

Agora, volta. E lê. Não deixe que ela pense que entregou suas pérolas aos porcos. Respeite a poesia. Desliga essa tv, desloga do facebook e abre o livro de novo.

"Ouçam a palavra clássica. Encurralados de cima a baixo. As orações secularizadas viram espasmos gramaticais. Pifaram. Ninguém vê, ninguém vem hoje ao baile que ninguém vê. Homeopaticamente os cortinados se inserem: entrepulos, dores de parto, sem que os nascimentos valham muito os recomeços intrépidos dos tenham-dito."
Ana C.

Bem, eu avisei...

Mariana Belize
Projeto Literário Olho de Belize

Bibliografia ao sabor das ondas

Nelly Novaes Coelho, Dicionário Crítico de Escritoras brasileiras
Ana Cristina Cesar, Poética
Milton Nascimento, Milagre dos Peixes
Buñuel, O anjo exterminador
Murilo Mendes, Obras Completas
Baudelaire, Flores do mal
Barthes, O prazer do texto
Drummond, tu-do
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas



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