Resenha #35: O Conto da Aia - Margaret Atwood

FICHA TÉCNICA

Autora: Margaret Atwood
Título: O Conto da Aia
Local de Publicação: Rio de Janeiro, 2017
Editora: Rocco
Nº páginas: 366
Gênero: Distopia


SINOPSE

"A história de 'O conto da aia' passa-se num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes - tudo fora queimado. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América. As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado - há as esposas, as marthas, as salvadoras etc. À pobre Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado. Era o caso de Offred. Por isso, sua filha lhe foi tomada e doada para adoção, e ela foi tornada aia, sem nunca mais ter notícias de sua família. É uma realidade terrível, mas o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Com esta história, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente."





CRÍTICA:

Imaginem vocês, que há anos a natureza não está mais dando conta de tanta poluição, as usinas nucleares estão falhando e espalhando radioatividade no mundo e para piorar, a taxa de natalidade começa a cair assustadoramente. As coisas já  estavam ruins, mas de repente um grupo extremista religioso, algum tipo cristão, resolve que eles precisam assumir o poder, instalar uma nova república para então assim salvar o mundo da desgraça. Eles invadem o congresso e matam todos, implantam a República de Gilead, rasgam a constituição, agora a bíblia e os ensinamentos, que são obviamente deturpados, regem a todos. E como se não bastasse, agora as mulheres pertencem ao Estado e estão ali para servir, pois "Primeiro Deus fez Adão e só depois Eva" e foi por ela que foram expulsos do Paraíso.

Agora, esse novo governo vai nos classificar em Aias, Marthas, Esposas, Tias etc. As Aias são as mulheres que tem útero e ovários saudáveis e que podem engravidar, por isso servem para procriar- eu ouvi escravas sexuais? - eita! As Marthas são as empregadas, o verde é sua cor - e as esposas dos Comandantes, que cumprem o papel de administradora da Casa e que podem ou não ter filhos saudáveis, as Tias são quem "educam e formam" as Aias. Isso tudo acontece no Universo distópico criado pela autora, onde seriam os EUA por volta do ano de 1955.

 Direito de ir e vir? Psss, piada, o Estado controla tudo, absolutamente tudo. Ler? Terminantemente proibido às mulheres. Escolher com quem se casar? Nem pensar! 

Toda noite vou para a cama e penso: vou acordar de manhã em minha casa e as coisas estarão de volta como eram. Não aconteceu essa manhã também.      pág 237

Já pensou viver nessa situação? Esse caos agoniante, totalitário e fundamentalista é o cenário da nossa história e resenha de hoje.

Senhoras e senhores, bem-vindos à Gilead! Bendito seja o fruto e que Ele possa abri-lo!


"Nossa, eu fugiria desse lugar maluco!" Sim, eis que a nossa contadora dessa história, a Aia que não tem nome, tentou, em vão, fugir, acabou perdendo o marido e foi separada da filha de 8 anos de idade. Ela foi captura e levada ao Centro Vermelho para se tornar uma Aia.

Aprendemos a sussurrar quase sem qualquer ruído. Na quase escuridão podíamos esticar nossos braços, quando as Tias não estavam olhando, e tocar as mãos umas das outras sobre o espaço. Aprendemos a ler lábios, nossas cabeças deitadas, coladas às camas, viradas para o lado, observando a boca umas das outras. Dessa maneira trocávamos nomes, de cama em cama: Alma. Janine. Dolores. Moira. June   --- pág 12

Alguns acham que o nome dela é June. Mas em nenhum sagrado momento ela fala, durante a história seu nome, e isso não nos importa, já que é provavelmente a única coisa que restou dela. A única coisa que é sua de verdade. Agora seu nome é Offred. "a que pertence a... (nome do seu comandante), assim como Offglen, Offwarren e tantas outras que são, como a própria Offred fala: útero com duas pernas. Elas são coisas, servem apenas para procriar.

A narrativa é extremamente detalhista, com pouquíssimos diálogos, que vão intercalando coisas que ela está vivendo com recordações da sua vida como era antes. E é exatamente isso que gera angústia. Ela não pode reagir quando encontra alguém que conhece, não pode expressar sentimento, e muito menos falar. Há "Olhos" em todo canto. Não tem pra onde fugir. A única fuga é aquela que se faz para dentro de si, ao cometer suicídio.



A República de Gilead é de um extremismo muito semelhante ao que já temos por aí, como os grupos Hamaz, os Talibã que governaram o Afeganistão e implantaram essas leis marciais bem semelhantes.


Margaret Atwood com seu talento inigualável, representou em pouco mais de 300 folhas um mundo que já existe, e que, inspirada pela obra "1984" mesclou a ficção e construiu uma obra sem igual. Digna de todos os prêmios possíveis. E pensar que esse livro foi escrito na década de 80, mas só agora, com a estreia da Série, de mesmo nome, o mundo pôde conhecer a autora e suas palavras. Ela mesmo diz que "Gilead foi construída sob a base de raízes puritanas do século XVII que sempre estiveram por baixo da América moderna que pensávamos conhecer."


A humanidade é tão adaptável, diria minha mãe. É verdadeiramente espantoso as coisas com que as pessoas conseguem se habituar, desde que existam algumas compensações.  --- pág 320


VEREDITO

Angustiante. Sufocante. Brilhante. Essas são as palavras que descrevem esse livro. Eu demorei muito para lê-lo, pois confesso que não me sentia bem, ficava sufocada lendo. A maestria na escrita da autora por vezes choca, fala na sua cara coisas que nem ousamos dizer em voz altas às vezes.

Certamente é um dos melhores livros que já li na minha vida e digo, não é uma leitura fácil. Não é para qualquer um, não. Se você não curte muito distopias, principalmente narrativas sem muito diálogo, pode achar ele meio chato, arrastado. Mas resista. Esse é um daqueles livros que você precisa ler antes de morrer. E não se esqueça:

"NOLITE TE BASTARDES CARBORUNDORUM!'

Nota: 5/5 

Onde comprá-lo: Amazon http://amzn.to/2zXWOv1

Beijos e até a próxima!

2 comentários:

  1. Milene é incrível como posso passar horas lendo resenhas suas! A forma que você expressa sua opinião é muito cativante! Parabéns! Seu blog merece ao menos uma editora parceira! Quanto ao livro só ouço maravilhas sobre ele! Ainda mais sendo do que é um dos meus gêneros favoritos!!! Resenha impecável, como sempre! Beijos...

    www.blogleituravirtual.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa! Nem imagina o quanto fico realizada com essa mensagem! Muito obrigada! A admiração é recíproca. Espero que ano que vem alguma editora volte os olhos para nosso humilde blog hehe. Vou continuar batalhando pra isso.
      É uma SENHORA distopia! Uma das melhores, mais intensas e incríveis que já li.
      Beijos!

      Excluir

por Milene Farias desde 2016. Tecnologia do Blogger.