RESENHA #41: A obscena Senhora D., Hilda Hilst



FICHA TÉCNICA

Autora: Hilda Hilst
Título: A Obscena Senhora D.
Nº páginas: 112
Gênero: Prosa poética e dramática
Editora: Globo Livros


SINOPSE:





Escrito na particularíssima prosa de Hilda Hilst, onde todos gêneros narrativos se fundem e os recursos estéticos mais variados são usados, 'A Obscena Senhora D' é Hillé, que após a morte do seu amante, se recolhe ao vão da escada, para falar 'dessa coisa que não existe, mas é crua e viva, o Tempo.' Obra plena dos temas mais caros à autora - o desamparo, a condição humana, o apodrecimento da carne, a alma conturbada - 'A Obscena Senhora D' é uma procura lúcida e hipnótica das razões da existência, onde tudo pode acontecer, de uma facada pelas costas até um apaixonado beijo de amor.


CRÍTICA

“Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome” (Hillé, A Obscena Senhora D.)

A poeta, dramaturga e escritora paulista Hilda Hilst lançou sua obra “A obscena senhora D” em 1982, pela Massao Ohno Editora.

A personagem principal, Hillé, uma mulher de sessenta anos, casada com Ehud, desde sempre apresenta como maior característica seus intensos questionamentos diante da vida, sobre a morte e, principalmente, sobre Deus.

“um dia vou compreender, Ehud
compreender o quê?
isso de vida e morte, esses porquês”

Em determinado momento, Hillé passa a viver no vão da escada de casa e apresentar comportamentos diferentes do comum. Os vizinhos se encarregam de transformar, ainda mais, a imagem de Hillé, na figura de uma louca.
Ehud apelida a mulher de “Senhora D.” e, a partir disso, inicia-se uma série de questionamentos de Hillé aos seus “interlocutores”: Ehud, Deus, os vizinhos, um padre, entre outros. Além, é claro, dela mesma.
“escute, Senhora D, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, hein?”

As maiores características da escrita hilstiana são as estratégias narrativas do fluxo de consciência, da carga lírica que sua narrativa carrega e da dramaticidade de seus textos. Seus personagens questionam vida, morte, amor e refletem a busca existencial e filosófica em questões primordiais humanas: porque existimos? O que é existir? Por que vivemos? O que é a vida? O que é a morte? O que é corpo? O que é Deus?
Mais importante do que os assuntos ela questiona em suas obras é como Hilda Hilst constrói, pela linguagem, uma narrativa que transgride todas as regras do gênero romanesco, trazendo para dentro de uma estrutura estanque a quebra de diálogos, a desconstrução nas descrições de personagens, além de reflexões filosóficas marcadas pelo olhar metafórico, metonímico e místico da realidade humana.
“um dia me disseram: as suas obsessões metafísicas não nos interessam, senhora D, vamos falar do homem aqui agora. que inteligentes essas pessoas, que modernas, que grande cu aceso diante dos movietones, notícias quentinhas, torpes, dois ou três modernosos controlando o mundo, o ouro saindo pelos desodorizados buracos, logorreia vibrante moderníssima, que descontração, um cruzar de pernas tão à vontade diante do vídeo, alma chiii morte chiii, falemos do aqui agora.”

“(…) só poderia,/ se falasse deste/ tempo, só/ poderia/ balbuciar balbuciar/ sempre, sempre,/ só só//” (‘Pallaksch, Pallaksch’) (Celan, 1996, p.105)
Em Hillé, o corpo não é um inimigo, é uma casa indesejada: aquela que não se pode abandonar, ainda que lhe seja inútil. O corpo, para Hillé, é um limitador de suas conclusões sobre a vida, a morte e a existência, e Deus O corpo afasta Hillé do Porco-Menino. O vão da escada é uma metáfora para a derrelição do próprio corpo. A casa-corpo sofre essa derrelição. Ao mesmo tempo é no corpo que ela sente Deus, seja ficando molhada por conta do desejo pelo encontro com Deus, seja quando ela fala da teofagia, de comer Deus, pela hóstia.
Segundo Hillé, as respostas de suas perguntas virão “no sopro de alguém, num hálito, num olho mais convulsivo, num grito, num passo dado em falso, no cheiro quem sabe de coisas secas, de estrume, um dia um dia um dia”, como um nirvana alcançado pelos budistas a partir de fenômenos simples.
“(…) A tarde da morte da última mulher” (Mendes, p.261)
Ainda que suas poucas páginas possam suscitar num leitor desavisado o sentimento de pequenez e simplicidade, é meu dever avisar: não se engane. A leitura é densa, exige não só a atenção correta, mas também… uns silêncios e algumas paciências a que, normalmente, não estamos acostumados. Para ouvirmos Hillé até a página 10, leremos ao menos duas vezes cada página. Para ouvirmos a Senhora D. , levam-se uns bons anos, lendo e relendo, andando com o livro pra cima e pra baixo, pensando, sonhando e dormindo com ele. Hilda Hilst não é para os descrentes do poder da literatura. É um livro exigente, uma literatura áspera, não por uma construção torta, mas pela escuridão que nos toca, pelo abismo que se apresenta aos atenciosos leitores.
Aos apressados, nada acontecerá. Não passarão das primeiras páginas.
Mas aos que persistirem, garanto. Não sairão os mesmos que entraram.
Io, Hilst!
Mariana Belize
Projeto Literário Olho de Belize


Bibliografia:
1. obscena senhora d
3 heidegger
4 dicionario de filosofia abagnano
5 dicionario de mistica
7 poética do erótico samira chalhoub



Nenhum comentário:

por Milene Farias desde 2016. Tecnologia do Blogger.