Resenha #51: Kindred - Laços de Sangue de Octavia E. Butler

FICHA TÉCNICA:

Autora: Octavia E. Butler
Título: Kindred - Laços de Sangue
Local de Publicação: São Paulo, 2017
Editora: Morro Branco
Nº páginas: 432
Gênero: Ficção Científica




"Não haverá tranquilidade nem sossego na América enquanto o negro não tiver garantidos os seus direitos de cidadão… Enquanto não chegar o radiante dia da justiça… A luta dos negros por liberdade e igualdade de direitos ainda está longe do fim", declarou Martin Luther King na lendária marcha pelos direitos civis rumo a Washington em 1963. Declaração feita 100 anos depois da Abolição da Escravatura.

Ainda em 1808 o Congresso proibiu a importação de escravos,  e nesse período, os Estados Unidos estava dividido em Norte Industrializado e Sul Agrícola.
Se os estados do Sul dependiam da agricultura, obviamente eram contra essa declaração, pois eles precisavam da mão de obra escrava nas suas plantações e um de seus argumentos era de que "negros não eram gente, por isso não tinham direitos."
E a discussão foi tanta que uma guerra civil estourou em 1861 durando 4 longos anos. 
Por fim, no dia 1º de janeiro de 1863 foi promulgada o Ato de Emancipação dos negros, mas foi somente em 1865 que a escravidão foi definitivamente abolida.

E então os negros foram felizes para sempre?
Naaaaa! Acho que não!
A vida não é um conto de fadas!

A violência, a segregação e os atos de discriminação continuaram acontecendo com eles ao longo das décadas, pra se ter uma ideia foi somente em 1967 que uma lei que proibia casamento misto foi anulada. Isso mesmo! Na década de 70  enfim negros podiam se casar com os brancos de forma legal.

Mas o que tudo isso tem haver com a resenha de hoje?
Simples assim: vou falar de uma obra de ficção científica escrita por uma mulher negra que tem como personagem principal outra moça negra que vive nos anos 70 e que por circunstâncias do destino acaba viajando no tempo para 1815 em Maryland, um estado sulista extremamente escravagista. Com certeza isso vai dar ruim pra Dana.

Kindred: laços de sangue  vai falar de uma forma profunda, tocante e emocionante sobre a escravidão e o quanto ela mata lentamente um ser humano e mais do que marcas nas costas feitas pelas chibatadas, as marcas que ficam na alma são irreversíveis e totalmente transformadoras, principalmente para uma mulher tão livre e independente como a Dana.




SINOPSE:

"Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça. Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida... até acontecer de novo. E de novo. Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil – um lugar perigoso para uma mulher negra –, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado. "


CRÍTICA:

Octavia Butler é filha de um engraxate e de uma empregada doméstica que trabalhava na casa de brancos, cresceu num período marcado pelo racismo. Mas ela decidiu ser escritora e enfrentou barreiras como preconceito e a dislexia, entrou na Universidade, estudava a noite e trabalhava durante o dia, nunca deixou de acreditar em si mesma e no legado que ela deixaria, então ela se tornou a primeira mulher negra norte-americana a conquistar o sucesso em uma área da literatura totalmente dominada por homens: a ficção científica. 
Com Kindred, ganhou inúmeros prêmios e com seus livros trouxe heroínas negras para falar de temas como empoderamento, raça sexualidade e escravidão.


Como seria se uma mulher negra vivendo em pleno século XXI fosse transportada para um período marcado pela escravidão?

Dana não consegue entender o que acontece na primeira vez em que é transportada no tempo. Isso vai acontecer nas próximas vezes ao perceber que não tem saída e precisará enfrentar todo o horror da escravidão para proteger Rufus, já que estará vivendo na fazenda de Tom Weylin, um senhor de escravos.

E assim vai acontecer toda vez que Rufus Weylin está perigo. O menininho branco a quem ela precisa salvar.  

Eu era a pior guardiã possível que ele podia ter, uma negra para cuidar dele em uma sociedade que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele em uma sociedade que via mulheres como eternas incapazes.  (pág. 110)

Aos poucos, Dana vai entendo porque está ali e porque precisa proteger esse menino. E é exatamente nesse ponto que inicia um mega dilema moral. O menino branco, filho daquele terrível senhor de escravos é seu seu antepassado. Em algum momento ela leu o diário de uma menina chamada Hagar que foi sua ancestral e ela dizia que era filha de alguém com sobrenome Weylin ela não lembrava do primeiro nome, mas agora sabia. Rufus seria pai de Hagar, e ela precisava mantê-lo vivo até o nascimento dessa menina, mas isso levaria muito tempo e cada segundo naquele lugar era perigoso demais.

Ela parou, espreitando-me na escuridão. Então, ela era Alice. Aquelas pessoas eram meus parentes, meus ancestrais. (pag 60)

Toda vez que Dana está com sua vida em perigo ela volta para seu apartamento, para Kevin, seu marido, para a segurança. O tempo que passa no presente e no passado são diferentes. Enquanto que no passado decorrem meses, no presente duram segundos, algumas horas, alguns poucos dias.



Dana sabe ler, escrever, é uma mulher muito inteligente e determinada. Tudo de ruim pra "preto" naquela época. Afinal, "preto educado só atrapalha os negócios, eles começam a pensar, a questionar e se tornam preguiçosos pra trabalhar", diziam os donos das fazendas.

O horrores da época marcados pela violência física e psicológica  aos negros que eram escravizados sai das páginas e você consegue ver e sentir tudo o que Dana descreve ao narrar as punições que observa e também ao sofrer com elas. Dana apanha, é humilhada,  pensa várias vezes que vai morrer. Mas isso tudo não lhe tira a dignidade e a vontade de cumprir sua missão para enfim viver em paz com seu marido e ter sua vida de volta.

A escravidão era um processo que matava pouco a pouco. (pág. 293)

A relação de Dana com Rufus vai se transformando ao longo da história. É uma interdependência. Rufus precisa dela, porque se sente seguro ao seu lado e pode conversar, dividir suas inseguranças pois ela o compreende. Dana precisa dele vivo porque sua existência depende disso e ela também vai tentar orientar ele para que não se torne tão terrível quanto seu pai é. Porém, com o passar do tempo, conforme Rufus vai crescendo e se tornando um homem, ela percebe que não tem mais tanto poder de influência assim, e começa a ver o quão instável e perigoso ele é.

A construção do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios — sejam morais, religiosos, éticos ou de comportamento — que balizam a conduta do indivíduo num grupo. O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela.” Durkheim.

Trouxe essa frase de Durkheim para que, durante a leitura de Kindred, você também possa compreender melhor o Rufus. Sem dúvida é o personagem mais complexo que já tive contato, e eu não o detesto, o compreendo, todas as suas ações e comportamento, assim como Dana o fazia.

Sobre a Dana: que mulher fantástica! A força de aguentar tudo, de ter que aprender a ser submissa, ter que se calar, ter que sofrer tudo que seus ancestrais já sofreram e ver o quanto o mundo foi cruel com os que tinham sua cor. Tudo isso a transformam numa mulher durona, mas extremamente sensível.

Kevin, você não precisa bater nas pessoas para tratá-las com brutalidade. (pág 162)
Passado e presente se mesclam para mostrar que séculos não mudam tanta coisa assim.
A forma da escrita da Octavia é divina!  Apesar de descritiva, como qualquer obra de ficção científica é, a leitura só cansa pelo peso que as palavras têm como um desabafo da autora que surge na voz de sua personagem. E você se sente pequeno, impotente e angustiado com o destino de nossos personagens. O fim é totalmente aceitável e vem como um suspiro final e ao mesmo tempo um recomeço difícil.


VEREDITO:

Kindred é uma obra de arte, um manifesto tocante sobre os dilemas raciais, o preconceito e principalmente sobre o poder. Como a própria autora fala: "Todas as lutas são, essencialmente, lutas sobre poder".
Você não consegue ler Kindred sem se sentir diferente depois de acabar a leitura. Eu o recomendo com todo o meu carinho, para que não nos esqueçamos nunca de que somos todos iguais e que o que nos torna humanos é a nossa capacidade de ver no outro aquilo que somos de verdade, e perceber que somos integrantes criadores da realidade em que vivemos e dependemos uns dos outros para poder existir.

CLASSIFICAÇÃO DA MI:



Você pode adquirir Kindred na Amazon, na Submarino, nas Americanas e na Livraria Cultura. Essas são as versões em capa comum, mas a Morro Branco fez uma edição maravilhosa em capa dura que eu ainda vou ter! 





4 comentários:

  1. Oi Mi!
    É esse tipo de livro que faz da literatura algo tão formidável! Livros que não servem apenas como entretenimento ou passa tempo. Livros que tocam, que marcam e que ficam guardados para sempre na memória!!! Suas resenhas são maravilhosas! Lindas fotos! Beijos...

    www.blogleituravirtual.com/

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    1. Oi, Gustavo! Exatamente! Leituras fortes assim são necessárias para analisarmos nossa realidade é nossa própria história.

      Obrigada 😘 beijos

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  2. Já fiquei angustiada só de lê a resenha e imaginar tudo o que a Dana vai passar. Ainda bem que tenho Kindred e logo estarei lendo.
    Bjs

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    1. Oi Leila, que ótimo saber que você já tem o livro! Assim que ler ele por favor, me diz o que achou.
      Realmente é uma leitura que dilacera, mas extremamente necessária e muuuuuuito bem escrita pela Octavia.

      Beijos!

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por Milene Farias desde 2016. Tecnologia do Blogger.